À frente da OAB São Carlos e Ibaté, Andrea Martos Valdevite reflete sobre liderança, a presença feminina no Direito e os desafios de enfrentar uma das mais graves violências sociais do país.
Liderar uma instituição que representa toda uma classe exige mais do que conhecimento técnico. Exige valores, responsabilidade e a capacidade de compreender que decisões institucionais impactam não apenas profissionais, mas também a própria sociedade.
Para Andrea Martos Valdevite, presidente da OAB São Carlos e Ibaté, a liderança nasce muito antes de qualquer cargo. É fruto de valores pessoais, da formação familiar e de uma trajetória construída com estudo, trabalho e senso de justiça.
“Antes de qualquer cargo, sou filha, mãe, advogada e alguém que acredita no poder transformador do Direito quando ele é exercido com consciência e coragem.”
Essa visão acompanha Andrea desde o início de sua trajetória profissional e molda a forma como ela enxerga o papel do Direito na sociedade. Para ela, a advocacia nunca foi apenas uma carreira, mas uma ferramenta de transformação social.
Quando a liderança passa a representar uma classe Assumir a presidência de uma instituição
como a OAB significa compreender que cada posicionamento ganha uma dimensão coletiva. A fala deixa de ser individual e passa a representar milhares de profissionais e os valores institucionais que sustentam a advocacia.
“Quando assumimos a presidência da OAB compreendemos que cada palavra ganha um peso diferente. Já não se fala apenas em nome próprio, mas em nome de uma classe inteira que deposita confiança na instituição.”
Esse lugar exige prudência, reflexão e uma escuta constante da diversidade que compõe a advocacia. A profissão reúne trajetórias, realidades e desafios diferentes — e liderar significa compreender essas múltiplas vozes.
Mulheres transformando o Direito
Nas últimas décadas, a presença feminina na advocacia brasileira cresceu de forma significativa. Hoje, as mulheres representam mais de metade da classe, ocupando cada vez mais espaços de liderança e decisão.
“Esse avanço revela a força e a competência com que as mulheres têm ocupado e transformado os espaços da advocacia.”
Ainda assim, Andrea reconhece que estruturas culturais persistem e que, muitas vezes de forma sutil, ainda desafiam a presença feminina em posições de comando.
“Ser mulher à frente de uma instituição exige preparo, segurança e competência para enfrentar preconceitos que nem sempre se apresentam de forma explícita.”
Violência contra a mulher: um desafio social
A Lei Maria da Penha é considerada uma das legislações mais avançadas do mundo no enfrentamento à violência doméstica. No entanto, os índices de agressão e feminicídio ainda preocupam.
Para Andrea, o desafio não está na lei em si, mas na capacidade de garantir que suas políticas sejam plenamente implementadas.
“Falhamos quando o Estado não consegue oferecer rede de proteção suficiente, quando a vítima não encontra acolhimento imediato ou quando a sociedade ainda naturaliza comportamentos violentos.”
A prevenção, segundo ela, passa pela informação, pela educação e pelo fortalecimento das redes de proteção. Muitas mulheres convivem durante anos com violência psicológica e emocional antes
que a situação evolua para agressões físicas.
O papel institucional da OAB
Nesse cenário, a OAB desempenha um papel fundamental na defesa da cidadania e dos direitos humanos.
Quando a instituição se posiciona contra a violência doméstica ou o feminicídio, não se trata de debate partidário, mas de compromisso institucional com a dignidade humana.
A entidade também atua na promoção de debates, no acompanhamento de políticas públicas e no incentivo para que a advocacia contribua com a proteção das vítimas e com o acesso à justiça.

O futuro da advocacia e o legado
Ao olhar para a próxima década, Andrea acredita que o advogado do futuro precisará reunir sólida formação jurídica e capacidade de adaptação. A tecnologia, reconhece, já está transformando profundamente a forma como o Direito é exercido. Ainda assim, ela sustenta que nenhuma inovação substituirá aquilo que considera essencial na advocacia: ética, pensamento crítico, sensibilidade humana e compromisso com a justiça.
Quando pensa sobre o fim do mandato, Andrea diz que gostaria de ver sua gestão lembrada como um período que fortaleceu a advocacia, honrou o papel institucional da OAB e ampliou o diálogo com a sociedade sem se afastar dos valores fundamentais da justiça e da dignidade humana.
Sua mensagem final aos leitores e leitoras reafirma a mesma linha que atravessa toda a entrevista: o Direito só cumpre sua verdadeira missão quando está a serviço da vida, da dignidade humana e da justiça. Para isso, são necessárias instituições fortes, profissionais tecnicamente preparados
e eticamente comprometidos, além de uma sociedade que não naturalize a injustiça nem aceite a desigualdade como algo inevitável. A transformação, conclui, começa quando deixamos de ser espectadores da realidade para nos tornarmos protagonistas de mudanças que tornem o país mais digno, mais humano e mais justo para todos.
Uma sociedade que falha em proteger suas mulheres falha em proteger a própria humanidade.
