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O Clique Que o Tempo Não Apaga

Por Daniele Globo
Entre negativos, lembranças e 168 anos de histórias, São Carlos prova que o tempo — quando bem revelado — nunca desaparece.

Houve uma época em que fotografar era um ato de espera.
A luz precisava ser medida, o enquadramento pensado, o instante escolhido com cuidado — porque cada clique custava. O rolo de 36 poses ensinava a enxergar antes de apertar o disparador, e a revelação, dias depois, era um pequeno milagre: o passado transformado em imagem. Com a digitalização, o ritual se perdeu. Vieram as telas, os filtros, os gestos automáticos. Milhares de fotos feitas, poucas lembradas. Mas o que parecia esquecido está voltando — e com nova força.

O renascimento do analógico

O interesse pela fotografia em filme vive um crescimento constante em todo o mundo.
Segundo dados atualizados do setor, o mercado global de filmes fotográficos movimenta mais de US$ 100 milhões e deve dobrar até 2031, impulsionado por uma nova geração que não viveu o analógico, mas se apaixona pelo que ele representa: pausa, processo e surpresa.

Laboratórios voltaram a funcionar, câmeras herdadas dos avós foram retiradas das caixas e comunidades on-line trocam rolos, dicas e olhares.
Fotografar voltou a ter cheiro de química, som de engrenagem e gosto de tempo.

“Fotografar em filme é sentir o tempo de outro jeito.
É aceitar o erro, o imprevisto e a surpresa.
É devolver o olhar à fotografia.”
Anderson Rodrigues, entusiasta da fotografia analógica.

Do declínio ao encanto

A história da fotografia também é feita de ironias.
A Kodak, gigante do século XX e pioneira na criação da câmera digital, sucumbiu a ela.
Duas décadas depois, seus filmes voltam a ser disputados por jovens e colecionadores.
O que antes simbolizava o passado virou sinônimo de autenticidade.
O analógico, hoje, é contracultura: um gesto de resistência em meio à pressa e ao excesso.

O charme do imperfeito

O erro é parte da beleza.
O grão, o desfoque, a luz que vaza no negativo — tudo o que o digital tenta corrigir é justamente o que dá alma à imagem.
Cada foto é única, irrepetível, carregada de intenção.
No filme, não há botão de apagar.
Há escolha, espera e memória.

Saudosismo que conecta gerações

O retorno da fotografia analógica dialoga com um sentimento mais amplo: o desejo de voltar a tocar o que o tempo tornou distante.
O vinil voltou a tocar nas salas, o papel voltou às mãos, o olhar desacelerou.
É uma nostalgia ativa — que não busca reviver o passado, mas reaprender com ele.

São Carlos: o tempo em imagens

Neste mês, São Carlos celebra 168 anos, e as fotografias do acervo do Pró-Memória ganham outro significado.
Cada imagem antiga — as ruas de terra, as festas populares, os retratos de família — carrega o mesmo encantamento do filme analógico: o instante capturado para não ser esquecido.

Essas fotos revelam mais do que paisagens: revelam a essência da cidade.
O clique das câmeras de rolo registrava o que os megapixels não capturam — o ritmo de um tempo que andava devagar o bastante para ser sentido.

Entre o ontem e o agora

A fotografia analógica sobrevive porque nos lembra que viver é diferente de registrar.
Assim como São Carlos, que preserva suas histórias e as transforma em novos começos, o filme também resiste — como quem diz que algumas imagens só fazem sentido depois de reveladas.

Talvez seja esse o verdadeiro encanto da fotografia: o de nos ensinar, uma vez mais, a olhar devagar.

Em foco

  • O filme resiste: o mercado global de fotografia analógica cresce cerca de 8,6% ao ano.
  • Memória viva: o acervo do Pró-Memória preserva registros da cidade desde o século XIX.
  • Fotografar em filme é sentir o tempo de outro jeito — aceitar o erro, o imprevisto e a surpresa.

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