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QUANDO O DIAGNÓSTICO DO FILHO EXIGE QUE OS PAIS RECONSTRUAM A PRÓPRIA IDENTIDADE

mar 2026

O autismo não reorganiza apenas a rotina das famílias – ele confronta expectativas, expõe fragilidades institucionais e obriga adultos a revisitar a própria história.

Por Alexandre Marques

O aumento dos diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) nas últimas duas décadas tem sido analisado sob a ótica clínica, educacional e estatística. Mas existe um movimento menos visível – e talvez mais transformador – acontecendo dentro das famílias: a reorganização da identidade dos pais.

O diagnóstico de uma criança não é apenas um marco médico. Ele é um evento simbólico. Ele rompe narrativas previamente construídas e exige uma revisão profunda do que se imaginava como futuro.

O LUTO QUE NÃO É SOBRE PERDA, MAS SOBRE EXPECTATIVA

Segundo a psicóloga Ana Lima, o primeiro impacto não está no comportamento da criança, mas nas expectativas projetadas antes mesmo de ela nascer. “O luto vivido pelos pais não é pela perda do filho real, mas pela perda das expectativas e idealizações construídas antes do diagnóstico.”

Essa distinção é essencial. O filho permanece. O que se desfaz é a imagem idealizada – aquela construída socialmente sobre desempenho, autonomia, socialização e sucesso. A ruptura dessa imagem exige elaboração psíquica. Quando esse luto não é reconhecido, muitos pais permanecem presos à tentativa de normalização. “Quando há espaço para elaborar essa perda simbólica, torna-se possível construir uma relação mais realista e respeitosa, menos atravessada por culpa e comparação.”

QUANDO O DIAGNÓSTICO TAMBÉM REESCREVE A HISTÓRIA DOS PAIS

Ao ouvir descrições clínicas sobre rigidez cognitiva, hipersensibilidade sensorial ou dificuldades de interação social, muitos adultos reconhecem traços da própria infância. Cresceram em um tempo em que o autismo era pouco discutido ou invisibilizado. O diagnóstico do filho, então, não apenas reorganiza o presente – ele reabre o passado.

Para Marli Moretti, mãe atípica e ativista pelos direitos das pessoas com deficiência há mais de uma década, o diagnóstico do filho há dezoito anos representou uma ruptura concreta. “O diagnóstico deixou de ser apenas sobre ele quando eu percebi que o mundo não estava preparado para acolhê-lo.”

“Até então eu era apenas mãe. Depois dali, passei a ser psicóloga, advogada, economista. Tantos desafios trouxeram medo e insegurança, mas também uma força que eu nem imaginava que tinha.” Quando o filho teve matrícula negada em duas escolas, a dimensão estrutural se tornou evidente. “Uma criança de três anos foi impedida de conviver com outras crianças por não se encaixar em um padrão imposto pela sociedade.”

O PROBLEMA NÃO É A CRIANÇA – É A ESTRUTURA

Marli passou a integrar conselhos municipais e colaborar com projetos de lei. “Existem leis muito boas na defesa dos direitos das pessoas com deficiência, mas não existe muita fiscalização. Na educação, a inclusão ainda é tratada como favor e não como direito. Falta formação adequada para professores e suporte às famílias. Na saúde, há demora para laudo médico e filas enormes para tratamentos.”

Ana Lima reforça: “Quando uma família recebe um diagnóstico, não basta entregar um laudo. É necessário oferecer orientação, acompanhamento psicológico e acolhimento contínuo.”

“O luto no autismo não é pela criança real – é pela expectativa que precisa ser ressignificada. Quando esse processo é acolhido, nasce um vínculo mais verdadeiro. ”

ANA LIMA

UMA REVISÃO DO QUE CHAMAMOS DE NORMAL

O aumento dos diagnósticos de autismo revela que operamos por décadas dentro de um conceito estreito de normalidade – associado a padrões rígidos de comportamento e produtividade. Para Marli, a mudança precisa ser cultural: “Meu sonho é que a neurodiversidade seja reconhecida como parte da condição humana, e não como exceção. Que a inclusão deixe de ser favor e seja compreendida como direito.” O diagnóstico do filho não reorganiza apenas rotinas. Ele reorganiza expectativas, reescreve identidades e expõe o quanto ainda precisamos evoluir como sociedade.

“O diagnóstico deixou de ser apenas sobre meu filho quando eu percebi que o problema não estava nele – estava na estrutura que não sabia acolhê-lo.”

MARLI MORETTI

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